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Showing posts from June, 2026

Black Swan - Crítica

Poucos filmes conseguem transformar a busca pela perfeição em algo tão assustador quanto Black Swan. Dirigido por Darren Aronofsky, o longa parte do universo do balé  com toda a sua disciplina, rigidez e idealização estética  para construir um thriller psicológico sobre obsessão, repressão, desejo e desintegração. Mas o que torna o filme tão fascinante é que ele nunca se contenta em ser apenas uma história sobre uma bailarina sob pressão. Black Swan é um filme sobre identidade em colapso, sobre o corpo como prisão e vitrine, e sobre o momento em que a necessidade de ser impecável deixa de ser ambição e se torna uma forma de aniquilação. A protagonista Nina, interpretada por Natalie Portman, vive em função do controle. Seu corpo, sua rotina, sua alimentação, sua sexualidade, sua relação com a mãe, tudo parece existir sob vigilância constante. Desde o início, Aronofsky constrói a personagem como alguém moldada para a pureza, para a delicadeza e para a obediência  qualidades...

A Substância - Crítica

Há filmes de horror que trabalham com o medo do desconhecido, da violência ou do sobrenatural. A Substância, dirigido por Coralie Fargeat, escolhe um caminho mais cruel porque parte de um terror completamente real: o de envelhecer em uma sociedade que ensinou mulheres a tratar o próprio corpo como um produto, uma vitrine e, principalmente, algo que precisa estar eternamente disponível ao olhar alheio. O body horror do filme não está ali apenas como excesso visual ou provocação estética; ele funciona como a materialização brutal de uma pressão que já existe no cotidiano. Em A Substância, o corpo feminino deixa de ser apenas corpo e se transforma em campo de batalha. A premissa do longa já carrega essa violência. Elisabeth Sparkle, interpretada por Demi Moore, é uma mulher que vê sua relevância profissional e simbólica desmoronar à medida que envelhece. Não porque tenha deixado de ser talentosa, interessante ou capaz, mas porque a indústria ao seu redor  e, por consequência, a socied...

007: mais do que uma franquia, um patrimônio da cultura pop - Crítica

Poucos personagens sobreviveram a tantas mudanças no mundo quanto James Bond. Ao longo de mais de seis décadas, o agente secreto criado por Ian Fleming atravessou guerras frias, revoluções tecnológicas, mudanças sociais, transformações no cinema e diferentes gerações de espectadores. Ainda assim, sempre que o tema de 007 toca em uma sala de cinema, existe uma sensação imediata de reconhecimento. Porque James Bond deixou de ser apenas um personagem há muito tempo. Ele se tornou um fenômeno cultural. Desde sua estreia nos cinemas com 007 Contra o Satânico Dr. No em 1962, Bond ajudou a definir o gênero de espionagem para milhões de pessoas. Carros sofisticados, vilões extravagantes, gadgets futuristas, perseguições internacionais e missões impossíveis se tornaram elementos inseparáveis da imagem do espião moderno graças à influência da franquia. Mas o mais impressionante não é sua longevidade. É sua capacidade de se reinventar. Ao contrário de personagens que permanecem praticamente inalt...

Whiplash - Crítica

Existem filmes sobre talento, filmes sobre superação e filmes sobre a busca pelo sucesso. Whiplash é um pouco de tudo isso, mas principalmente um filme sobre o que acontece quando a persistência deixa de ser virtude e passa a se tornar uma forma de autodestruição. Dirigido por Damien Chazelle, o longa transforma a relação entre um jovem baterista e seu professor em uma batalha psicológica sufocante, onde a linha entre disciplina e crueldade vai desaparecendo a cada cena. À primeira vista, Whiplash parece seguir a estrutura clássica do “jovem promissor em busca do seu sonho”. Andrew Neiman, interpretado por Miles Teller, quer ser um dos grandes nomes do jazz. O problema é que o caminho até esse objetivo passa por Terence Fletcher, vivido por J.K. Simmons em uma atuação tão intensa quanto assustadora. Fletcher não ensina; ele testa, pressiona, humilha e destrói, sempre sob a justificativa de estar extraindo grandeza. E é justamente nessa dinâmica que o filme encontra sua força: Whiplash ...

O Show de Truman - Crítica

Alguns filmes envelhecem. Outros parecem ficar mais relevantes com o passar do tempo. O Show de Truman pertence à segunda categoria. Lançado em 1998, o filme dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey foi recebido como uma sátira inteligente sobre televisão, entretenimento e manipulação midiática. Quase trinta anos depois, a obra se tornou algo ainda mais impressionante: um retrato assustadoramente preciso do mundo em que vivemos. A premissa é simples e brilhante. Truman Burbank vive uma vida aparentemente perfeita em uma pequena cidade litorânea. O que ele não sabe é que toda a sua existência é, na verdade, um programa de televisão. Desde o nascimento, cada momento de sua vida foi transmitido para milhões de espectadores ao redor do mundo. Sua família, seus amigos, seus relacionamentos e até seus medos foram cuidadosamente planejados por produtores que controlam cada aspecto de sua realidade. O conceito já era fascinante nos anos 1990. Hoje, parece uma previsão. Vivemos em uma...

Parasita - Crítica

Existem filmes que marcam um ano. Existem filmes que definem uma década. E existem aqueles raros filmes que parecem destinados a atravessar gerações. Parasita pertence a essa última categoria. Lançado em 2019 e dirigido por Bong Joon-ho, o longa sul-coreano entrou para a história ao se tornar o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme. Mas a verdade é que o reconhecimento da Academia foi apenas uma consequência natural de uma obra que já havia conquistado crítica e público ao redor do mundo. Porque Parasita não é apenas um grande filme. É um daqueles casos em que tudo funciona. A história acompanha a família Kim, que vive em condições precárias e encontra uma oportunidade de se infiltrar gradualmente na vida da rica família Park. O que começa como uma sátira social cheia de humor e ironia se transforma, pouco a pouco, em algo muito mais complexo, imprevisível e perturbador. Uma das maiores qualidades do roteiro está justamente em sua construção. Poucos film...

Pequena Miss Sunshine - Crítica

​ Existem filmes que emocionam por seus grandes acontecimentos. Outros emocionam porque nos fazem enxergar a humanidade em pessoas imperfeitas. Pequena Miss Sunshine pertence à segunda categoria. Lançado em 2006, o filme acompanha a família Hoover em uma viagem caótica através dos Estados Unidos para levar a pequena Olive até um concurso de beleza infantil. A premissa parece simples, quase banal. Mas é justamente durante essa jornada que o longa revela uma das histórias mais bonitas e sinceras já feitas sobre família. A primeira vez que assisti a Pequena Miss Sunshine, tive dificuldade para explicar exatamente o motivo de ter gostado tanto. Não existem reviravoltas grandiosas, efeitos especiais ou momentos pensados para arrancar lágrimas a qualquer custo. Ainda assim, quando os créditos sobem, fica a sensação de ter acompanhado algo profundamente humano. Talvez porque cada personagem daquela família carregue suas próprias dores. Richard Hoover é um homem obcecado pela ideia de sucesso ...

As Vantagens de Ser Invisível - Crítica

Existem filmes sobre a adolescência e existem filmes que realmente entendem o que significa atravessar essa fase da vida. As Vantagens de Ser Invisível pertence à segunda categoria. Lançado em 2012 e baseado no romance homônimo de Stephen Chbosky, o longa acompanha Charlie, um jovem introvertido que tenta encontrar seu lugar no mundo enquanto lida com traumas, inseguranças e a difícil transição para a vida adulta. O que poderia ser apenas mais uma história sobre ensino médio se transforma em uma das narrativas mais sensíveis e honestas já produzidas sobre juventude, amizade e saúde emocional. Talvez o principal motivo para o filme funcionar tão bem seja justamente o fato de ter sido dirigido pelo próprio autor do livro. Diferente de muitas adaptações que acabam simplificando ou alterando elementos importantes da obra original, As Vantagens de Ser Invisível demonstra um profundo entendimento de seus personagens e de suas emoções. O resultado é uma adaptação que preserva aquilo que torno...

Masters of the Universe - Crítica

Adaptar He-Man para os cinemas nunca foi uma tarefa simples. Desde os brinquedos da Mattel até o desenho animado que marcou gerações nos anos 1980, Masters of the Universe sempre existiu em um espaço curioso da cultura pop: ao mesmo tempo em que abraça o exagero da fantasia, também carrega personagens visualmente tão icônicos que qualquer mudança gera controvérsia imediata. Por isso, o novo Masters of the Universe, dirigido por Travis Knight, acerta justamente onde muitos imaginavam que erraria. Em vez de fugir das origens da franquia, o filme abraça sua identidade, modernizando alguns elementos sem abrir mão daquilo que faz He-Man ser He-Man. A trama acompanha Adam, interpretado por Nicholas Galitzine, que precisa retornar a Eternia e assumir seu destino como o guerreiro mais poderoso do universo para enfrentar Skeletor. A premissa continua simples, mas o filme entende que a força da franquia nunca esteve na complexidade de sua história, e sim na grandiosidade de seu universo e no car...

Jogador Nº 1 - Crítica

Quando Jogador Nº 1 chegou aos cinemas em 2018, a expectativa era enorme. Afinal, o projeto reunia dois elementos que pareciam feitos um para o outro: Steven Spielberg, um dos cineastas mais influentes da cultura pop, e o romance homônimo de Ernest Cline, uma verdadeira celebração da cultura nerd das décadas de 1980 e 1990. O resultado foi um enorme sucesso de bilheteria e um espetáculo visual impressionante. Ainda assim, a recepção crítica permaneceu dividida. Enquanto parte do público enxergou uma aventura divertida e repleta de referências, outra parte criticou justamente aquilo que parecia ser sua maior qualidade: a obsessão pela nostalgia. A história se passa em 2045, em um mundo marcado por desigualdade social e crises econômicas. Para escapar da realidade, milhões de pessoas passam grande parte do tempo conectadas ao OASIS, um gigantesco universo virtual criado por James Halliday. Após a morte de seu criador, uma competição global é iniciada. Quem encontrar os três desafios esco...

O retorno de Todo Mundo em Pânico e a relevância das sátiras atualmente - Crítica

Quando foi anunciado que Todo Mundo em Pânico ganharia um novo filme, a reação do público foi imediata. Nas redes sociais, muitos comemoraram o retorno da franquia, enquanto outros questionaram se ainda existe espaço para um tipo de humor que parecia ter ficado preso aos anos 2000. Afinal, o cinema de sátira praticamente desapareceu dos grandes lançamentos, mas basta o nome Todo Mundo em Pânico aparecer novamente para despertar o interesse de uma geração inteira. Essa aparente contradição revela algo curioso: talvez o gênero não tenha morrido. Talvez Hollywood apenas tenha parado de fazê-lo direito. Durante décadas, a sátira foi uma das formas mais inteligentes de comédia do cinema. Filmes como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, Corra que a Polícia Vem Aí! e os primeiros Todo Mundo em Pânico entendiam que uma boa paródia não consiste apenas em fazer referências. Ela exige conhecimento profundo daquilo que está sendo satirizado. É justamente por isso que os melhores momentos de Todo ...

A relevância de Toy Story - Crítica

Quando Toy Story chegou aos cinemas em 1995, ninguém imaginava que aquele seria o início de uma das franquias mais importantes da história da animação. O primeiro longa da Pixar não apenas revolucionou a tecnologia do cinema ao se tornar o primeiro filme inteiramente animado por computador, mas também redefiniu a forma como histórias animadas poderiam ser contadas. Mais de trinta anos depois, a série continua ocupando um lugar especial na cultura pop. E isso levanta uma questão curiosa: por que ainda existe tanta expectativa para Toy Story 5 se muitos fãs acreditam que a história já havia encontrado seu final perfeito em Toy Story 3? A resposta está justamente no impacto emocional que a franquia construiu ao longo das décadas. Diferentemente de muitas séries infantis, Toy Story cresceu junto com seu público. Quem assistiu ao primeiro filme quando criança acompanhou Andy passando pela infância, adolescência e, eventualmente, pela chegada à vida adulta. O encerramento de Toy Story 3 não ...

Dia D - Crítica

​ Existem poucos diretores capazes de despertar o senso de maravilhamento do público como Steven Spielberg. Ao longo de décadas, o cineasta construiu uma carreira explorando aventuras, mistérios e o fascínio humano pelo desconhecido. Em Dia D, seu mais novo longa-metragem, ele retorna ao terreno da ficção científica para entregar uma obra ambiciosa, emocionante e, ao mesmo tempo, surpreendentemente divisiva. A trama acompanha uma série de acontecimentos que colocam a humanidade diante da possibilidade de um contato que pode mudar para sempre nossa compreensão do universo. Misturando suspense, drama e ficção científica, Spielberg constrói uma narrativa que parece dialogar diretamente com temas que marcaram toda a sua filmografia: a curiosidade, o medo do desconhecido e a esperança de que exista algo maior além do que conhecemos. O maior mérito de Dia D está em sua capacidade de despertar encantamento. Mesmo após tantos anos de carreira, Spielberg continua dominando a arte de transformar...

Widow’s Bay - Crítica

​ Em uma época em que séries de terror frequentemente apostam apenas em sustos fáceis ou em mistérios excessivamente complexos, Widow's Bay, da Apple TV+, surge como uma das produções mais interessantes do gênero em 2026. Criada por Katie Dippold, a série mistura horror sobrenatural, humor excêntrico e um rico folclore de criaturas místicas para construir uma experiência que parece familiar e original ao mesmo tempo. Ambientada em uma pequena ilha amaldiçoada na costa da Nova Inglaterra, a trama acompanha o prefeito Tom Loftis, interpretado por Matthew Rhys, que tenta revitalizar economicamente a cidade através do turismo. O problema é que os moradores acreditam que a ilha está cercada por forças sobrenaturais e, conforme a história avança, descobrimos que eles talvez estejam certos. O grande mérito de Widow's Bay está em seu equilíbrio tonal. A série entende que horror e comédia são gêneros que dependem da mesma ferramenta: a quebra de expectativa. Quando o espectador acredita...

The Good Doctor - Crítica

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Em um gênero repleto de médicos brilhantes e hospitais caóticos, The Good Doctor encontra sua identidade ao colocar no centro da história um protagonista que desafia as expectativas de todos ao seu redor. A série acompanha Shaun Murphy, um jovem cirurgião com autismo e síndrome de savant que precisa conquistar seu espaço em um dos hospitais mais prestigiados do país. O grande destaque da produção é a atuação de Freddie Highmore. Ele consegue transmitir as dificuldades, inseguranças e talentos de Shaun de forma envolvente, tornando o personagem o coração da série. Além dos casos médicos, a trama aborda temas como preconceito, inclusão, empatia e as diferentes formas de enxergar o mundo. Em seus melhores momentos, The Good Doctor mostra que a medicina não depende apenas de conhecimento técnico, mas também da capacidade de compreender as pessoas. Por outro lado, a série nem sempre mantém o mesmo nível de qualidade ao longo das temporadas. Alguns conflitos acabam se repetindo, certos ...

Black Mirror, “San Junipero” - Crítica

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​ Sei que estou publicando muitas críticas sobre Black Mirror , mas é porque estou maratonando a série novamente. E prometo que esta vai ser minha última crítica sobre ela por um tempo. Para encerrar com chave de ouro, escolhi justamente um dos episódios mais especiais de toda a produção: “San Junipero”. Em uma série conhecida pelo pessimismo e pelas histórias sombrias, “San Junipero” se destaca por fazer algo inesperado: oferecer esperança. E é justamente por isso que o episódio se tornou um dos mais queridos de Black Mirror . A trama acompanha Yorkie e Kelly, duas mulheres que se conhecem em uma cidade litorânea aparentemente perfeita nos anos 1980. Aos poucos, a história revela que existe muito mais por trás daquele lugar do que parece à primeira vista. O episódio utiliza a tecnologia para discutir temas profundamente humanos, como envelhecimento, perda, amor e mortalidade. Em vez de focar nos perigos da inovação, ele explora a possibilidade de a tecnologia servir como uma extens...

Black Mirror, “Nosedive” (Queda Livre) - Crítica

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“Nosedive” é um dos episódios mais atuais de Black Mirror porque pega uma obsessão já existente nas redes sociais e a leva ao extremo. Em um mundo onde cada interação é avaliada por estrelas, a popularidade deixa de ser apenas status e se torna uma necessidade para sobreviver. A protagonista, Lacie, vive obcecada em aumentar sua pontuação social para conquistar uma vida melhor. O problema é que, quanto mais ela tenta parecer perfeita, mais artificial sua vida se torna. Cada sorriso, conversa e publicação passa a ser calculada em busca da aprovação dos outros. O episódio acerta ao mostrar como a busca constante por validação pode transformar relações humanas em performances. Embora a sociedade retratada pareça exagerada, muitos dos comportamentos apresentados lembram a realidade das redes sociais atuais, onde curtidas, seguidores e engajamento frequentemente influenciam a autoestima das pessoas. Visualmente, tudo é colorido, limpo e aparentemente agradável, mas existe uma sensação c...

Black Mirror, “Shut Up and Dance” - Crítica

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“Shut Up and Dance” é um dos episódios mais perturbadores de Black Mirror justamente porque não depende de tecnologia futurista para causar impacto. Tudo parece possível, próximo e assustadoramente real. A trama acompanha Kenny, um adolescente que passa a ser chantageado por hackers após ter seu computador invadido. Conforme ele recebe ordens cada vez mais absurdas, o público sente pena do personagem e torce para que ele consiga escapar daquela situação. O episódio funciona como um thriller tenso, mantendo a sensação constante de ansiedade. Cada nova tarefa aumenta o desconforto e faz o espectador questionar até onde alguém iria para proteger seus segredos. Mas o verdadeiro golpe vem no final. A revelação de que Kenny não estava escondendo apenas algo constrangedor, mas consumindo conteúdo envolvendo crianças, muda completamente a perspectiva da história. De repente, toda a empatia construída ao longo do episódio é colocada à prova. O mais interessante é que o episódio não tenta ...