Tick, Tick… Boom! - Crítica
Lançado em 2021 e dirigido por Lin-Manuel Miranda, Tick, Tick… Boom! é um musical sobre o som mais angustiante que existe: o do tempo passando. Baseado na obra autobiográfica de Jonathan Larson, criador de Rent, o filme acompanha um artista prestes a completar trinta anos enquanto tenta terminar o musical no qual deposita todas as suas esperanças, sua identidade e, de certa forma, a justificativa inteira de sua própria existência. O resultado é um filme vibrante e melancólico, que fala de criação com o mesmo entusiasmo com que fala de desgaste, e que transforma a paixão pela arte em algo tão bonito quanto exaustivo. Tick, Tick… Boom! não é apenas um musical sobre fazer arte; é um musical sobre o medo de não conseguir fazê-la a tempo.
Jonathan Larson surge aqui como uma figura profundamente reconhecível, mesmo para quem nunca pisou em um palco ou escreveu uma canção. Ele é o artista que acredita no próprio talento, mas vive assombrado pela possibilidade de que acreditar não seja suficiente. Trabalha em um restaurante, lida com contas, vê os amigos seguirem caminhos mais estáveis e tenta, ao mesmo tempo, terminar uma obra que talvez mude sua vida ou talvez não mude absolutamente nada. É esse “talvez” que move o filme. Tick, Tick… Boom! entende a ambição artística não como vaidade, mas como um tipo específico de vulnerabilidade: a de dedicar anos a algo invisível, incerto, sem garantias, sustentado apenas pela convicção desesperada de que aquilo importa.
O grande acerto do filme está em não romantizar completamente esse processo. Jonathan ama a arte com uma intensidade quase religiosa, mas o longa nunca transforma isso em pureza. Pelo contrário: mostra como a obsessão criativa também pode ser egoísta, destrutiva e profundamente solitária. Jon está tão consumido pela necessidade de fazer seu musical funcionar que muitas vezes não consegue enxergar o que acontece ao redor. O relacionamento amoroso se desgasta, as amizades são colocadas em segundo plano, a vida concreta vai pedindo espaço enquanto ele insiste em tratá-la como algo que pode ser resolvido depois, quando o sonho finalmente der certo. Tick, Tick… Boom! entende que viver para a arte pode ser uma forma de paixão, mas também uma forma de adiamento como se o presente inteiro fosse apenas um corredor apertado entre a frustração atual e a promessa de um futuro grandioso.
E é justamente essa tensão que torna o filme tão doloroso. Jon não teme apenas o fracasso; ele teme a insignificância. Teme chegar aos trinta anos sem ter criado nada que prove que sua vida teve peso, que seu talento era real, que o sacrifício valeu a pena. O aniversário que se aproxima funciona quase como um cronômetro existencial, um lembrete cruel de que o tempo não respeita processos criativos, não espera pela grande obra, não desacelera só porque alguém ainda está tentando descobrir como existir. Poucos filmes recentes capturam tão bem essa sensação de sufocamento diante da própria cronologia, essa ideia de que há uma idade certa para “dar certo” e que cada ano sem reconhecimento parece uma evidência de fracasso.
Mas Tick, Tick… Boom! também é atravessado por outra urgência, ainda mais profunda: a da memória e da perda. Ambientado no início dos anos 1990, o filme carrega nas entrelinhas a sombra da epidemia de AIDS e do impacto devastador que ela teve sobre a comunidade artística, especialmente a cena queer e teatral de Nova York. Isso confere ao tempo um peso ainda maior. Não se trata apenas de envelhecer ou de correr contra a frustração profissional, mas de viver em um contexto em que o futuro já não parece garantido para todos. A criação, nesse cenário, deixa de ser apenas realização pessoal e passa a se aproximar de um gesto de sobrevivência, de insistência, de permanência.
A direção de Lin-Manuel Miranda entende muito bem essa pulsação ansiosa. Em vez de suavizar o caos emocional de Jon, o filme mergulha nele. Os números musicais não surgem como fuga da realidade, mas como extensão direta da mente do protagonista: são explosões de energia, memória, medo e imaginação, formas de traduzir em som aquilo que o cotidiano não consegue comportar. Há algo de muito bonito na maneira como o filme transforma o processo criativo em linguagem cinematográfica, como se a própria cidade, o trabalho, os amigos e os fracassos estivessem o tempo todo prestes a virar música. Essa escolha faz com que Tick, Tick… Boom! pareça menos uma biografia convencional e mais um retrato íntimo do que significa viver com a cabeça permanentemente habitada por uma obra ainda inacabada.
Andrew Garfield sustenta tudo isso com uma performance impressionante, talvez justamente por nunca tentar transformar Jon em um “gênio sofredor” idealizado. Sua interpretação é nervosa, expansiva, carismática e, em muitos momentos, dolorosamente infantil. Ele faz de Jon alguém apaixonante e irritante na mesma medida: um homem que ama profundamente o que faz, mas que ainda não aprendeu a lidar com a possibilidade de que o mundo não o recompense por isso. Essa contradição é essencial, porque impede que o filme caia na santificação do artista e o mantém preso a algo mais humano: o medo, a vaidade, a ansiedade, a necessidade quase desesperada de ser lembrado.
No fim, Tick, Tick… Boom! é um filme sobre a crueldade de tentar transformar o próprio sonho em vida prática sem perder o amor por ele no caminho. Sobre o quanto criar pode ser uma forma de esperança, mas também uma forma de desgaste. Sobre a sensação de ver o tempo avançar enquanto você ainda está tentando construir algo que faça sentido. E, acima de tudo, sobre a coragem ou talvez a teimosia de continuar mesmo assim. Porque o verdadeiro coração do filme não está na promessa de sucesso, nem na ideia de que a arte sempre será recompensada, mas no gesto insistente de continuar criando apesar do medo, da dúvida e da passagem implacável do tempo.
Mais do que um musical sobre Jonathan Larson, Tick, Tick… Boom! permanece como um retrato dolorosamente honesto de todo mundo que já sentiu que a vida estava andando depressa demais para os próprios sonhos. Um filme sobre a urgência de deixar algo para o mundo antes que o relógio termine de contar. E sobre como, às vezes, a arte nasce justamente desse som do tique-taque insistente de quem ainda não desistiu.
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