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A Substância - Crítica

Há filmes de horror que trabalham com o medo do desconhecido, da violência ou do sobrenatural. A Substância, dirigido por Coralie Fargeat, escolhe um caminho mais cruel porque parte de um terror completamente real: o de envelhecer em uma sociedade que ensinou mulheres a tratar o próprio corpo como um produto, uma vitrine e, principalmente, algo que precisa estar eternamente disponível ao olhar alheio. O body horror do filme não está ali apenas como excesso visual ou provocação estética; ele funciona como a materialização brutal de uma pressão que já existe no cotidiano. Em A Substância, o corpo feminino deixa de ser apenas corpo e se transforma em campo de batalha. A premissa do longa já carrega essa violência. Elisabeth Sparkle, interpretada por Demi Moore, é uma mulher que vê sua relevância profissional e simbólica desmoronar à medida que envelhece. Não porque tenha deixado de ser talentosa, interessante ou capaz, mas porque a indústria ao seu redor  e, por consequência, a socied...

007: mais do que uma franquia, um patrimônio da cultura pop - Crítica

Poucos personagens sobreviveram a tantas mudanças no mundo quanto James Bond. Ao longo de mais de seis décadas, o agente secreto criado por Ian Fleming atravessou guerras frias, revoluções tecnológicas, mudanças sociais, transformações no cinema e diferentes gerações de espectadores. Ainda assim, sempre que o tema de 007 toca em uma sala de cinema, existe uma sensação imediata de reconhecimento. Porque James Bond deixou de ser apenas um personagem há muito tempo. Ele se tornou um fenômeno cultural. Desde sua estreia nos cinemas com 007 Contra o Satânico Dr. No em 1962, Bond ajudou a definir o gênero de espionagem para milhões de pessoas. Carros sofisticados, vilões extravagantes, gadgets futuristas, perseguições internacionais e missões impossíveis se tornaram elementos inseparáveis da imagem do espião moderno graças à influência da franquia. Mas o mais impressionante não é sua longevidade. É sua capacidade de se reinventar. Ao contrário de personagens que permanecem praticamente inalt...

Whiplash - Crítica

Existem filmes sobre talento, filmes sobre superação e filmes sobre a busca pelo sucesso. Whiplash é um pouco de tudo isso, mas principalmente um filme sobre o que acontece quando a persistência deixa de ser virtude e passa a se tornar uma forma de autodestruição. Dirigido por Damien Chazelle, o longa transforma a relação entre um jovem baterista e seu professor em uma batalha psicológica sufocante, onde a linha entre disciplina e crueldade vai desaparecendo a cada cena. À primeira vista, Whiplash parece seguir a estrutura clássica do “jovem promissor em busca do seu sonho”. Andrew Neiman, interpretado por Miles Teller, quer ser um dos grandes nomes do jazz. O problema é que o caminho até esse objetivo passa por Terence Fletcher, vivido por J.K. Simmons em uma atuação tão intensa quanto assustadora. Fletcher não ensina; ele testa, pressiona, humilha e destrói, sempre sob a justificativa de estar extraindo grandeza. E é justamente nessa dinâmica que o filme encontra sua força: Whiplash ...

O Show de Truman - Crítica

Alguns filmes envelhecem. Outros parecem ficar mais relevantes com o passar do tempo. O Show de Truman pertence à segunda categoria. Lançado em 1998, o filme dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey foi recebido como uma sátira inteligente sobre televisão, entretenimento e manipulação midiática. Quase trinta anos depois, a obra se tornou algo ainda mais impressionante: um retrato assustadoramente preciso do mundo em que vivemos. A premissa é simples e brilhante. Truman Burbank vive uma vida aparentemente perfeita em uma pequena cidade litorânea. O que ele não sabe é que toda a sua existência é, na verdade, um programa de televisão. Desde o nascimento, cada momento de sua vida foi transmitido para milhões de espectadores ao redor do mundo. Sua família, seus amigos, seus relacionamentos e até seus medos foram cuidadosamente planejados por produtores que controlam cada aspecto de sua realidade. O conceito já era fascinante nos anos 1990. Hoje, parece uma previsão. Vivemos em uma...

Parasita - Crítica

Existem filmes que marcam um ano. Existem filmes que definem uma década. E existem aqueles raros filmes que parecem destinados a atravessar gerações. Parasita pertence a essa última categoria. Lançado em 2019 e dirigido por Bong Joon-ho, o longa sul-coreano entrou para a história ao se tornar o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme. Mas a verdade é que o reconhecimento da Academia foi apenas uma consequência natural de uma obra que já havia conquistado crítica e público ao redor do mundo. Porque Parasita não é apenas um grande filme. É um daqueles casos em que tudo funciona. A história acompanha a família Kim, que vive em condições precárias e encontra uma oportunidade de se infiltrar gradualmente na vida da rica família Park. O que começa como uma sátira social cheia de humor e ironia se transforma, pouco a pouco, em algo muito mais complexo, imprevisível e perturbador. Uma das maiores qualidades do roteiro está justamente em sua construção. Poucos film...

Pequena Miss Sunshine - Crítica

​ Existem filmes que emocionam por seus grandes acontecimentos. Outros emocionam porque nos fazem enxergar a humanidade em pessoas imperfeitas. Pequena Miss Sunshine pertence à segunda categoria. Lançado em 2006, o filme acompanha a família Hoover em uma viagem caótica através dos Estados Unidos para levar a pequena Olive até um concurso de beleza infantil. A premissa parece simples, quase banal. Mas é justamente durante essa jornada que o longa revela uma das histórias mais bonitas e sinceras já feitas sobre família. A primeira vez que assisti a Pequena Miss Sunshine, tive dificuldade para explicar exatamente o motivo de ter gostado tanto. Não existem reviravoltas grandiosas, efeitos especiais ou momentos pensados para arrancar lágrimas a qualquer custo. Ainda assim, quando os créditos sobem, fica a sensação de ter acompanhado algo profundamente humano. Talvez porque cada personagem daquela família carregue suas próprias dores. Richard Hoover é um homem obcecado pela ideia de sucesso ...

As Vantagens de Ser Invisível - Crítica

Existem filmes sobre a adolescência e existem filmes que realmente entendem o que significa atravessar essa fase da vida. As Vantagens de Ser Invisível pertence à segunda categoria. Lançado em 2012 e baseado no romance homônimo de Stephen Chbosky, o longa acompanha Charlie, um jovem introvertido que tenta encontrar seu lugar no mundo enquanto lida com traumas, inseguranças e a difícil transição para a vida adulta. O que poderia ser apenas mais uma história sobre ensino médio se transforma em uma das narrativas mais sensíveis e honestas já produzidas sobre juventude, amizade e saúde emocional. Talvez o principal motivo para o filme funcionar tão bem seja justamente o fato de ter sido dirigido pelo próprio autor do livro. Diferente de muitas adaptações que acabam simplificando ou alterando elementos importantes da obra original, As Vantagens de Ser Invisível demonstra um profundo entendimento de seus personagens e de suas emoções. O resultado é uma adaptação que preserva aquilo que torno...

Masters of the Universe - Crítica

Adaptar He-Man para os cinemas nunca foi uma tarefa simples. Desde os brinquedos da Mattel até o desenho animado que marcou gerações nos anos 1980, Masters of the Universe sempre existiu em um espaço curioso da cultura pop: ao mesmo tempo em que abraça o exagero da fantasia, também carrega personagens visualmente tão icônicos que qualquer mudança gera controvérsia imediata. Por isso, o novo Masters of the Universe, dirigido por Travis Knight, acerta justamente onde muitos imaginavam que erraria. Em vez de fugir das origens da franquia, o filme abraça sua identidade, modernizando alguns elementos sem abrir mão daquilo que faz He-Man ser He-Man. A trama acompanha Adam, interpretado por Nicholas Galitzine, que precisa retornar a Eternia e assumir seu destino como o guerreiro mais poderoso do universo para enfrentar Skeletor. A premissa continua simples, mas o filme entende que a força da franquia nunca esteve na complexidade de sua história, e sim na grandiosidade de seu universo e no car...

Jogador Nº 1 - Crítica

Quando Jogador Nº 1 chegou aos cinemas em 2018, a expectativa era enorme. Afinal, o projeto reunia dois elementos que pareciam feitos um para o outro: Steven Spielberg, um dos cineastas mais influentes da cultura pop, e o romance homônimo de Ernest Cline, uma verdadeira celebração da cultura nerd das décadas de 1980 e 1990. O resultado foi um enorme sucesso de bilheteria e um espetáculo visual impressionante. Ainda assim, a recepção crítica permaneceu dividida. Enquanto parte do público enxergou uma aventura divertida e repleta de referências, outra parte criticou justamente aquilo que parecia ser sua maior qualidade: a obsessão pela nostalgia. A história se passa em 2045, em um mundo marcado por desigualdade social e crises econômicas. Para escapar da realidade, milhões de pessoas passam grande parte do tempo conectadas ao OASIS, um gigantesco universo virtual criado por James Halliday. Após a morte de seu criador, uma competição global é iniciada. Quem encontrar os três desafios esco...

O retorno de Todo Mundo em Pânico e a relevância das sátiras atualmente - Crítica

Quando foi anunciado que Todo Mundo em Pânico ganharia um novo filme, a reação do público foi imediata. Nas redes sociais, muitos comemoraram o retorno da franquia, enquanto outros questionaram se ainda existe espaço para um tipo de humor que parecia ter ficado preso aos anos 2000. Afinal, o cinema de sátira praticamente desapareceu dos grandes lançamentos, mas basta o nome Todo Mundo em Pânico aparecer novamente para despertar o interesse de uma geração inteira. Essa aparente contradição revela algo curioso: talvez o gênero não tenha morrido. Talvez Hollywood apenas tenha parado de fazê-lo direito. Durante décadas, a sátira foi uma das formas mais inteligentes de comédia do cinema. Filmes como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, Corra que a Polícia Vem Aí! e os primeiros Todo Mundo em Pânico entendiam que uma boa paródia não consiste apenas em fazer referências. Ela exige conhecimento profundo daquilo que está sendo satirizado. É justamente por isso que os melhores momentos de Todo ...