The Rocky Horror Picture Show - Crítica

The Rocky Horror Picture Show é o tipo de filme que parece desafiar qualquer tentativa de ser domesticado. Musical, terror, ficção científica, paródia, sátira sexual e delírio camp ao mesmo tempo, ele existe como uma experiência tão exagerada, tão performática e tão conscientemente artificial que sua própria desordem se torna parte essencial do encanto. À primeira vista, tudo nele parece puro absurdo: um casal ingênuo perdido em um castelo habitado por figuras excêntricas, um cientista alienígena travestido de sedução, criaturas performando desejo e uma narrativa que parece avançar de maneira quase anárquica. Mas é justamente nesse excesso, nessa recusa em se comportar, que The Rocky Horror Picture Show encontra sua força. Mais do que um filme “estranho” ou cult, ele é uma celebração da transgressão como linguagem uma obra que transforma o corpo, o desejo e a performance em ferramentas de libertação e provocação.


A trama acompanha Brad e Janet, um casal de aparência impecável, moral conservadora e energia quase caricaturalmente inocente, que, após um problema no carro, acaba buscando ajuda em uma mansão onde as regras da normalidade parecem ter sido abolidas. Lá, encontram o Dr. Frank-N-Furter, uma figura que condensa erotismo, teatralidade, poder e caos em um único corpo. Interpretado de maneira inesquecível por Tim Curry, Frank é o eixo gravitacional do filme: uma presença tão magnética quanto desconfortável, tão libertadora quanto manipuladora, alguém que transforma cada cena em um palco de sedução, ameaça e espetáculo. A partir de sua entrada, The Rocky Horror Picture Show deixa claro que não está interessado em contar uma história convencional, mas em desmontar, com deboche e desejo, as noções tradicionais de gênero, sexualidade, pureza e decoro.


É impossível falar do filme sem reconhecer sua relação com o camp. Tudo em Rocky Horror é excessivo, artificial, teatral e deliciosamente consciente do próprio exagero. Os figurinos, a maquiagem, a atuação, os cenários, os diálogos nada busca naturalismo. Pelo contrário: o filme abraça a encenação como gesto político e estético. Há uma alegria muito específica em ver uma obra que entende a performance não como máscara que esconde uma verdade, mas como a própria forma de existir. Em The Rocky Horror Picture Show, vestir-se, cantar, posar, dançar e provocar não são adornos da narrativa; são a narrativa. O corpo vira palco, e o palco vira espaço de invenção de si.


Nesse sentido, Brad e Janet funcionam quase como representantes de uma ordem moral que o filme quer colocar em colapso. Eles chegam à mansão carregando a imagem do casal idealizado, limpo, casto e previsível, como se tivessem saído diretamente de uma fantasia romântica dos anos 1950. O que o filme faz com eles é, essencialmente, submetê-los a um ritual de desestabilização. Não se trata apenas de expô-los ao desejo, mas de mostrar que a identidade “respeitável” que sustentam é muito mais frágil do que parece. Aos poucos, aquela rigidez se desfaz, e o filme revela o quanto a moralidade que os define depende da repressão, do medo e da performance social. The Rocky Horror Picture Show entende a sexualidade como um campo de transformação, mas também como uma ameaça ao ideal normativo de estabilidade.


Ao mesmo tempo, o filme nunca é totalmente simples em sua ideia de libertação. Frank-N-Furter surge como símbolo de transgressão absoluta, alguém que recusa qualquer limite imposto por gênero, comportamento ou desejo. Ele encarna uma liberdade radical, intoxicante, quase irresistível. Mas o filme também o constrói como figura de manipulação, narcisismo e crueldade. Essa ambiguidade é importante porque impede que Rocky Horror se transforme em um manifesto ingênuo sobre “ser livre” sem consequências. O desejo aqui não é puro nem moralmente elevado; ele é bagunçado, egoísta, contraditório, às vezes violento. A libertação que o filme propõe não vem embalada como redenção, e sim como ruptura e rupturas quase nunca são confortáveis.


Talvez seja por isso que The Rocky Horror Picture Show permaneça tão vivo dentro da cultura pop e da comunidade queer. Não porque ofereça respostas organizadas sobre identidade, mas porque cria um espaço onde o excesso, a estranheza, o erotismo e a não conformidade deixam de ser algo a ser escondido e passam a ser celebrados em voz alta. É um filme que ri da heteronormatividade, bagunça a masculinidade, erotiza a performance e transforma a própria ideia de “normalidade” em piada. Mais do que representar dissidência, ele a encena com orgulho, barulho e muito brilho.


Mas também existe algo melancólico em Rocky Horror, e talvez isso fique mais evidente quando o caos começa a revelar sua própria fragilidade. Por trás da festa, há solidão, vaidade, necessidade de controle e uma sensação de que toda aquela liberdade performada precisa se sustentar no palco porque fora dele talvez não sobreviva. O filme entende que a performance pode ser libertadora, mas também pode ser escudo, armadura, espetáculo montado para não encarar o vazio. Isso não diminui sua potência; pelo contrário, a torna mais interessante. The Rocky Horror Picture Show não celebra apenas o prazer de romper regras, mas também a instabilidade que vem depois disso.


No fim, o que faz o filme atravessar décadas é justamente sua recusa em ser comportado. The Rocky Horror Picture Show é um ataque bem-humorado à moral sexual, ao conservadorismo e à rigidez dos papéis sociais, mas também é um convite para olhar a identidade como algo performático, mutável e inevitavelmente estranho. Ele entende o desejo como espetáculo, a diferença como força e o exagero como linguagem política. E talvez seja por isso que continue tão amado: porque poucos filmes tiveram a coragem de ser tão ridículos, tão sensuais, tão bagunçados e, ao mesmo tempo, tão radicalmente livres.

Comments

Popular posts from this blog

Pecadores - Crítica

The boys, final - Crítica

Anime Friends 2026