Into the Woods - Crítica
Lançado em 2014 e baseado no musical de Stephen Sondheim, Into the Woods parte de uma pergunta simples, mas devastadora: o que acontece depois que os contos de fadas terminam? O que sobra quando o desejo finalmente é realizado, quando o príncipe chega, quando a maldição é quebrada, quando a vaca dá dinheiro, quando o sapatinho serve? Ao reunir personagens clássicos como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, João e Rapunzel em uma mesma narrativa, o filme parece, à primeira vista, apenas brincar com o imaginário infantil. Mas logo revela algo muito mais inquietante: Into the Woods não está interessado na fantasia como escapismo, e sim como espelho das contradições humanas. É um musical sobre querer, conquistar e descobrir, tarde demais, que nenhum desejo vem sem consequências.
A floresta do título é o coração simbólico da história. Mais do que cenário, ela funciona como um espaço de travessia moral, um lugar onde personagens saem em busca daquilo que acreditam precisar e acabam confrontados com o que realmente são. Todos entram na floresta movidos por uma falta: o padeiro e sua esposa querem um filho, Cinderela quer escapar de sua vida, João deseja melhorar sua condição, Chapeuzinho só quer atravessar o caminho. Cada um leva consigo um sonho aparentemente claro, quase infantil em sua simplicidade. Mas Into the Woods é cruel o bastante para lembrar que desejar não é um ato inocente. Querer algo significa também abrir mão de outra coisa, interferir na vida alheia, alterar o equilíbrio do mundo e, inevitavelmente, assumir responsabilidades.
É aí que o filme se distancia do conforto tradicional dos contos de fadas. A primeira metade ainda preserva algo da estrutura clássica: há missões, humor, romance, encantamento e a sensação de que tudo caminha para a recompensa esperada. Mas quando os desejos se realizam, Into the Woods muda de tom e mostra sua verdadeira proposta. O “felizes para sempre” não encerra a narrativa; ele a complica. O amor idealizado se revela insuficiente, a conquista não elimina a solidão, a vitória não impede a culpa e o final feliz se mostra incapaz de proteger os personagens da perda. O filme entende que crescer é justamente perceber isso: que a vida não se organiza em recompensas definitivas, e que maturidade talvez seja aceitar a ambiguidade de tudo aquilo que antes parecia simples.
Essa ambiguidade está em cada personagem. Cinderela talvez seja uma das figuras mais bonitas da história porque seu arco não gira em torno de escolher entre pobreza e luxo, mas entre papéis que lhe foram oferecidos e a necessidade de escutar a si mesma. Ela não quer apenas um príncipe; quer entender o que significa fazer uma escolha quando nenhuma opção parece totalmente certa. O padeiro e sua esposa, por sua vez, representam com força a dimensão mais adulta do filme. O desejo por um filho, que inicialmente parece o mais nobre de todos, acaba atravessado por egoísmo, frustração, tentação e culpa. Into the Woods não idealiza seus personagens; pelo contrário, os humaniza ao mostrar que até os desejos mais legítimos podem vir acompanhados de contradições desconfortáveis.
Também é impossível falar do filme sem mencionar como ele trata a noção de herança não no sentido material, mas emocional e moral. Em muitos momentos, Into the Woods parece sugerir que crescer significa perceber o peso daquilo que recebemos dos outros: medos, traumas, valores, ausências. Pais falham, adultos mentem, promessas se quebram, e os mais jovens precisam aprender a viver com as consequências dessas escolhas. A frase recorrente sobre como “crianças escutam” não é apenas um lembrete moral; é uma das chaves do filme. Ele entende que nenhuma ação acontece isoladamente, e que tudo o que fazemos reverbera nos outros, especialmente naqueles que ainda estão tentando aprender como o mundo funciona.
A força do musical está justamente em não oferecer respostas fáceis. Into the Woods não diz que sonhar é errado, nem que o desejo deve ser reprimido. O que ele propõe é algo mais duro e mais verdadeiro: que viver envolve desejar mesmo sem garantia, amar mesmo sem segurança, escolher mesmo sem certeza e seguir em frente mesmo depois de errar. A floresta não é um lugar onde se encontra pureza ou redenção absoluta; ela é o espaço onde as ilusões infantis se quebram e dão lugar a uma compreensão mais complexa da vida.
No fim, Into the Woods é um musical melancólico disfarçado de conto de fadas. Um filme sobre o fim da inocência, sobre a fragilidade dos finais felizes e sobre a responsabilidade que existe em cada escolha. Ele usa príncipes, gigantes, feitiços e canções para falar de coisas profundamente humanas: luto, desejo, culpa, família e amadurecimento. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão poderoso. Porque entende que o verdadeiro terror não está na floresta, na bruxa ou no lobo, mas no momento em que percebemos que crescer significa continuar andando, mesmo depois que as histórias deixam de prometer um final simples.
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