Hairspray - Crítica

Baseado no musical da Broadway inspirado no filme de John Waters, Hairspray é um daqueles raros musicais que conseguem ser, ao mesmo tempo, deliciosamente divertidos e politicamente afiados. Com sua explosão de cores, números musicais vibrantes e uma protagonista impossível de não amar, o filme se apresenta como uma comédia adolescente leve, cheia de romance, dança e carisma. Mas por trás do brilho, do humor e da energia contagiante, existe uma narrativa profundamente interessada em discutir exclusão, racismo, gordofobia e o direito de existir em um mundo que insiste em selecionar quais corpos merecem visibilidade. Hairspray entende que dançar, cantar e ocupar o palco também pode ser um gesto político.


A história acompanha Tracy Turnblad, uma adolescente apaixonada por dança que sonha em participar do programa televisivo mais popular de Baltimore. Tracy não se encaixa no padrão de beleza esperado para uma estrela da TV: é gorda, expansiva, barulhenta, apaixonada pela própria alegria e incapaz de se encolher para caber no olhar dos outros. E talvez seja justamente isso que faz dela uma protagonista tão poderosa. Em vez de construir sua trajetória como uma narrativa de “superação” baseada em transformação corporal ou adequação estética, Hairspray insiste em algo muito mais interessante: Tracy não precisa mudar para merecer espaço. O mundo ao redor é que precisa rever as regras que determinam quem pode ser visto, desejado, celebrado e escutado.


Essa escolha dá ao filme uma força enorme. Tracy não é tratada como piada, nem como exceção tolerável dentro de um sistema que continua funcionando da mesma forma. Ela é o centro emocional da história, alguém cuja confiança, gentileza e obstinação desorganizam uma estrutura inteira de exclusão. Sua presença em cena não é apenas charmosa; é desobediente. Em um universo onde a televisão, a escola e a própria lógica social parecem reproduzir padrões rígidos de beleza, comportamento e aceitação, Tracy existe como recusa. Ela dança como se o corpo fosse liberdade, não vergonha. Ama como se não houvesse nada de errado em desejar ser vista. E luta sem transformar a própria doçura em submissão. Hairspray entende que a alegria, quando insiste em existir apesar da exclusão, pode ser profundamente radical.


Mas o filme não se limita à questão dos padrões de beleza. Sua camada mais importante está no modo como conecta a trajetória de Tracy à luta contra a segregação racial. Ambientado nos anos 1960, Hairspray coloca no centro da narrativa a separação entre jovens brancos e negros dentro do entretenimento, mostrando como a televisão e a cultura pop também funcionavam como mecanismos de exclusão. O programa de dança que Tracy idolatra reflete um mundo onde corpos negros são mantidos à margem, permitidos apenas em espaços específicos e controlados. Ao aproximar Tracy de personagens como Motormouth Maybelle e de toda a cena negra que pulsa fora do centro “aceitável” da TV, o filme desloca sua história de realização individual para algo maior: uma luta coletiva por representação, integração e dignidade.


E é justamente aí que Hairspray se torna mais bonito. Tracy poderia facilmente ser construída como uma heroína que quer apenas realizar o próprio sonho, mas o filme a transforma em alguém capaz de perceber que não faz sentido conquistar espaço dentro de um sistema injusto sem questionar a exclusão de quem continua do lado de fora. Seu desejo de dançar passa a caminhar junto com a necessidade de transformar aquele espaço em algo menos violento, menos seletivo, menos racista. Isso impede que o filme se acomode em uma mensagem superficial de autoestima e o aproxima de algo mais forte: a ideia de que representatividade sem justiça estrutural é insuficiente.


Ao mesmo tempo, Hairspray nunca abandona o prazer do musical. Pelo contrário: é justamente por meio da música e da dança que o filme articula sua força política. Os números musicais não servem apenas para divertir, mas para tornar visível a energia de corpos que se recusam a desaparecer. Há uma vibração coletiva no filme, uma sensação de que dançar junto também é construir comunidade, afirmar presença, recusar o apagamento. A trilha sonora é expansiva, os movimentos são vivos, os figurinos são cheios de personalidade tudo parece trabalhar para reforçar essa ideia de que ocupar espaço com o próprio corpo, com a própria voz e com a própria alegria pode ser um ato de resistência.


Nikki Blonsky sustenta Tracy com um carisma imenso, sem jamais transformá-la em símbolo abstrato. Ela é engraçada, romântica, impulsiva, idealista e cheia de vida, uma protagonista que conquista justamente por parecer acreditar, com todas as forças, que o mundo pode ser mais gentil do que é. Ao redor dela, o elenco contribui para esse equilíbrio entre diversão e crítica, especialmente Queen Latifah, que dá à Motormouth Maybelle uma presença calorosa e firme, essencial para o peso emocional da história.


No fim, Hairspray continua tão encantador porque entende que a luta por espaço não precisa abrir mão da alegria. É um filme sobre resistência, mas uma resistência colorida, musical, afetuosa e profundamente coletiva. Um filme que fala sobre racismo, padrões de beleza e exclusão sem abandonar o prazer da performance, como se dissesse que existir com barulho, brilho e orgulho também é uma forma de enfrentar a violência de um mundo que prefere certos corpos invisíveis. Mais do que um musical divertido, Hairspray permanece como uma celebração da presença da presença de quem dança, de quem canta, de quem ama, de quem insiste em aparecer mesmo quando o mundo diz que seria melhor ficar de fora.

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