Bienal do Livro de São Paulo 2026 - COBERTURA


A literatura tem uma capacidade curiosa de reunir pessoas que, fora das páginas, talvez nunca encontrassem motivos para compartilhar o mesmo espaço. Em uma mesma feira, leitores podem se aproximar por meio de romances, fantasias, histórias de terror, mangás, literatura clássica e tantas outras formas de narrar o mundo. Durante alguns dias, essas afinidades deixam de existir apenas nas estantes de casa ou nas comunidades virtuais e passam a ocupar corredores, filas, auditórios e conversas entre desconhecidos. É justamente nessa transformação da leitura em experiência coletiva que reside uma das maiores forças da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Em 2026, porém, o evento não chamou atenção somente pela capacidade de reunir leitores. Sua dimensão também trouxe à superfície questões sobre o mercado editorial, a influência da cultura pop, os limites da organização de grandes eventos e o próprio significado de consumir literatura em uma sociedade cada vez mais atravessada pelas redes sociais.


Realizada entre os dias 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi, a 28ª edição da Bienal recebeu 760 mil visitantes, estabelecendo um recorde histórico para o evento. Foram 269 expositores, aproximadamente 800 autores e 3,65 milhões de livros ofertados, distribuídos por uma área total de 87 mil metros quadrados. A organização também divulgou um aumento de 57% na média diária de faturamento dos expositores em comparação com a edição de 2024. Os números são expressivos e demonstram a força comercial de uma feira que continua mobilizando leitores, editoras e profissionais de diferentes segmentos da indústria editorial. Ainda assim, embora seja tentador interpretar o recorde como uma vitória incontestável da leitura no Brasil, é necessário observar o que existe para além das estatísticas. Afinal, a quantidade de pessoas que atravessa os portões de um evento não responde, sozinha, às perguntas sobre os hábitos de leitura da população, a formação de novos leitores ou o lugar ocupado pela literatura na vida cotidiana.


Existe, entretanto, algo importante no simples fato de tantas pessoas terem escolhido dedicar parte de seus dias a um evento centrado nos livros. Durante muito tempo, a relação entre juventude e leitura foi frequentemente apresentada a partir de uma oposição quase automática: de um lado, os livros; do outro, as telas, os jogos, os vídeos curtos e as redes sociais. Nessa perspectiva, o crescimento do entretenimento digital seria necessariamente acompanhado pelo desaparecimento do interesse pela literatura. A Bienal oferece motivos para questionar essa divisão. A leitura contemporânea não acontece isolada das demais manifestações culturais, e os leitores não precisam abandonar seus interesses por cinema, jogos ou música para construir uma relação significativa com os livros. Pelo contrário, essas experiências podem se complementar, criando novas portas de entrada para histórias, autores e universos ficcionais.


A popularidade de gêneros como fantasia, romance, terror e dark romance, assim como a presença de mangás e de comunidades de fãs, demonstra que a literatura também é vivida por meio de vínculos coletivos. Um livro pode ser o ponto de partida para amizades, debates, produções artísticas, teorias e manifestações de afeto que ultrapassam a experiência individual da leitura. As redes sociais participam desse processo ao permitir que leitores compartilhem recomendações, descubram obras e encontrem pessoas com interesses semelhantes. O fenômeno merece ser observado com atenção, sobretudo porque revela que o livro não precisa competir com todas as formas de entretenimento para continuar relevante. Em muitos casos, ele se torna justamente o elemento que conecta diferentes experiências culturais.


Isso não significa, entretanto, que a popularização da literatura deva ser celebrada sem questionamentos. Existe uma diferença entre reconhecer a importância de aproximar novos públicos dos livros e presumir que toda forma de consumo literário produz, necessariamente, uma relação mais profunda com a leitura. O mercado editorial depende de vendas, e a presença de grandes públicos em feiras como a Bienal é fundamental para a sobrevivência de editoras, livrarias e autores. Ainda assim, quando a experiência literária passa a ser organizada também em torno de tendências, lançamentos aguardados, edições colecionáveis e fenômenos virais, surge uma questão inevitável: como equilibrar o entusiasmo comercial com o incentivo a uma relação duradoura e crítica com a literatura?


Não se trata de desmerecer quem lê por influência das redes sociais, quem coleciona edições especiais ou quem se aproxima dos livros por meio de uma obra popular. Toda trajetória de leitura começa em algum lugar, e não existe motivo para exigir que um leitor iniciante tenha, desde o primeiro contato, o mesmo repertório ou as mesmas preocupações de alguém que passou décadas estudando literatura. O problema surge quando a quantidade de livros consumidos, a velocidade com que são lidos ou a capacidade de acompanhar todas as tendências se tornam medidas absolutas de uma experiência que deveria comportar ritmos, interesses e interpretações diferentes. A leitura não precisa ser uma competição, tampouco uma obrigação de desempenho. Seu valor não está apenas no número de páginas percorridas, mas também nas perguntas que uma história desperta, nas emoções que provoca e nas possibilidades de compreensão do mundo que oferece.


A Bienal, por sua própria dimensão, ocupa uma posição interessante nesse debate. Ao mesmo tempo que funciona como uma grande vitrine comercial, ela também pode despertar curiosidades, aproximar leitores de autores e permitir que obras desconhecidas encontrem seus primeiros públicos. O desafio está em não reduzir a experiência literária a nenhum desses aspectos isoladamente. Vender livros é importante, assim como criar comunidades de leitores, garantir espaço para diferentes vozes e estimular o contato com obras que talvez não recebessem a mesma visibilidade fora de um evento dessa proporção. Uma feira literária pode cumprir todas essas funções, mas precisa reconhecer que o sucesso de uma delas não garante automaticamente o sucesso das demais.


Essa discussão se torna ainda mais relevante quando observamos as polêmicas que atravessaram a edição de 2026. A repercussão de uma performance envolvendo homens mascarados no estande da editora Fruto Proibido provocou questionamentos sobre os limites das ações promocionais em um ambiente frequentado por diferentes faixas etárias. A organização se manifestou após o episódio, que gerou debates sobre responsabilidade, adequação e o espaço ocupado pelo “dark romance” na cultura popular. Em outro caso, a cobertura de parte da capa de uma obra de “Boys' Love”, da editora NewPOP, a pedido da organização, levantou questionamentos sobre critérios de classificação de conteúdo e possíveis diferenças de tratamento entre manifestações culturais. Os episódios não são idênticos e precisam ser analisados em seus contextos específicos, mas ambos colocam em evidência uma questão importante: como estabelecer regras claras para um evento que pretende reunir públicos diversos sem transformar a diversidade literária em motivo para intervenções arbitrárias?


Um espaço cultural de grande circulação precisa, evidentemente, estabelecer limites para garantir a segurança e o bem-estar dos visitantes. A liberdade de expressão não elimina a responsabilidade de editoras e organizadores, sobretudo quando determinadas atividades promocionais acontecem em um ambiente compartilhado por adultos, adolescentes e crianças. Isso, porém, não significa que a resposta para qualquer controvérsia deva ser a restrição indiscriminada de obras ou expressões artísticas. É necessário distinguir situações diferentes, estabelecer critérios transparentes e garantir que as decisões sejam tomadas de maneira coerente. Quando as regras não são suficientemente claras, a organização corre o risco de alimentar a percepção de que determinados gêneros ou públicos são mais aceitáveis do que outros.


A questão é particularmente delicada porque a literatura sempre foi um espaço de exploração de temas difíceis, desejos contraditórios, conflitos morais e experiências que nem sempre encontram acolhimento fora da ficção. Isso não significa que toda obra esteja acima de críticas ou que qualquer ação promocional deva ser permitida sem avaliação. Significa apenas que a discussão precisa considerar as diferenças entre o conteúdo de uma narrativa, a maneira como ela é apresentada ao público e as condições em que uma atividade acontece. Em vez de tratar a diversidade literária como um problema a ser administrado, a Bienal poderia aproveitar essas controvérsias para reforçar a importância de uma convivência cultural baseada em regras compreensíveis, responsabilidade e respeito à pluralidade.


Além das discussões sobre conteúdo, a experiência física do evento também merece atenção. A edição de 2026 ampliou sua área total em 28% em relação à de 2024, mas a expansão não impediu que os dias de maior movimento fossem marcados por filas extensas e dificuldades de circulação. Reportagens publicadas durante a feira registraram aglomerações em corredores, longas esperas em estandes populares e problemas nos espaços de alimentação. Em determinados momentos, a procura por atrações específicas pareceu ultrapassar a capacidade de acomodar confortavelmente o público interessado.


Essas dificuldades não anulam o sucesso da Bienal, mas mostram que o crescimento exige planejamento proporcional. Quando milhares de pessoas se deslocam para encontrar autores, comprar livros ou participar de atividades, a infraestrutura deixa de ser um detalhe secundário e passa a integrar a própria experiência cultural. Acessibilidade, orientação dos visitantes, organização das filas, disponibilidade de assentos e circulação entre os estandes são aspectos que influenciam diretamente a maneira como o público vivencia o evento. Não basta reunir atrações capazes de despertar interesse; é necessário garantir condições para que as pessoas consigam aproveitá-las.


Há também uma questão econômica que merece ser considerada. O aumento do faturamento dos expositores demonstra a importância comercial da Bienal, mas o acesso à literatura não pode depender exclusivamente da capacidade individual de compra. A organização informou que mais da metade dos visitantes teve acesso gratuito e destacou iniciativas como a distribuição de vales-livro para estudantes e servidores da rede municipal. Essas medidas contribuem para ampliar o alcance do evento, embora não resolvam, por si só, as desigualdades de acesso aos livros no cotidiano. Afinal, a possibilidade de visitar uma feira durante alguns dias é diferente de poder adquirir obras regularmente, frequentar bibliotecas bem estruturadas e encontrar espaços de leitura ao longo do ano.


É justamente nesse ponto que a discussão sobre a democratização da leitura precisa ultrapassar os limites da Bienal. Um evento de grande porte pode despertar interesse, oferecer experiências memoráveis e aproximar novos leitores do mercado editorial, mas não substitui políticas permanentes de acesso à cultura. Bibliotecas públicas, projetos de mediação de leitura, programas de formação de leitores e iniciativas que valorizem a produção literária nacional continuam sendo fundamentais. Se a Bienal deseja contribuir para uma relação mais ampla com os livros, seu impacto precisa ser pensado também a partir do que acontece depois que os portões se fecham e os estandes são desmontados.


Estar presente em um evento dessa dimensão representa mais do que acompanhar uma programação cultural ou visitar os espaços de uma grande feira. Significa ocupar um ambiente de circulação de ideias, observar de perto as transformações do mercado editorial e reafirmar o compromisso de construir um veículo dedicado à cultura, ao entretenimento e às diferentes formas de expressão artística.


A participação do BG Cult nesse espaço tem um significado especial porque o trabalho de um veículo cultural independente não se constrói apenas por meio das publicações que chegam ao público. Ele também depende das oportunidades de acompanhar acontecimentos, conhecer iniciativas, ampliar referências e estabelecer uma presença em ambientes nos quais a cultura é discutida, produzida e compartilhada. Estar na Bienal representa, portanto, um passo importante para o nosso crescimento e para a consolidação da identidade que queremos construir para o BG Cult.


Mais do que uma conquista individual, essa presença reforça a importância de veículos que buscam olhar para a cultura com curiosidade, senso crítico e disposição para investigar aquilo que acontece além dos grandes lançamentos. A cobertura cultural não precisa se limitar aos acontecimentos mais evidentes nem reproduzir exclusivamente o discurso das instituições. Ela também pode propor perguntas, identificar contradições e aproximar o público de discussões que merecem ser aprofundadas. É nesse espaço que queremos construir o nosso trabalho: não apenas falar sobre cultura, mas participar de sua circulação e contribuir para as conversas que ela desperta.


A experiência também nos lembra que a construção de um veículo cultural exige continuidade. Estar presente em um evento importante é significativo, mas a credibilidade se desenvolve ao longo do tempo, por meio da consistência editorial, da responsabilidade na apuração e da capacidade de produzir conteúdo que ofereça algo além da divulgação. A Bienal representa uma oportunidade de crescimento e um incentivo para continuar ampliando nossa atuação, buscando novas experiências e desenvolvendo um olhar cada vez mais atento sobre as manifestações culturais que nos cercam.


Ao observar a edição de 2026, fica evidente que a Bienal do Livro de São Paulo é muito mais do que uma feira de vendas. Ela é um espaço no qual se encontram interesses comerciais, experiências afetivas, comunidades de leitores, disputas culturais e diferentes concepções sobre o que significa ler. Seu recorde de público demonstra que existe uma mobilização expressiva em torno dos livros, mas também torna mais urgente a necessidade de discutir as condições em que essa relação se desenvolve. A literatura pode ser entretenimento, objeto de coleção, instrumento de reflexão, fonte de identificação e ponto de partida para encontros. Nenhuma dessas dimensões precisa excluir as outras, desde que o mercado não seja confundido com a totalidade da experiência literária.


Talvez o maior mérito da Bienal seja justamente tornar visível uma relação com os livros que, muitas vezes, é tratada de maneira simplista. Não estamos diante de uma escolha entre literatura e cultura pop, entre leitura tradicional e redes sociais ou entre entretenimento e reflexão. Estamos diante de um cenário em transformação, no qual diferentes linguagens se cruzam e novos públicos encontram seus próprios caminhos até as histórias. O desafio é garantir que essa aproximação não se encerre no entusiasmo de um lançamento ou na euforia de um grande evento, mas possa se transformar em oportunidades duradouras de acesso, descoberta e formação cultural.


Para nós, do BG Cult, fazer parte desse momento foi importante não apenas pelo significado de estar presente em uma das maiores celebrações literárias do país, mas também pelo que essa experiência representa para o futuro do nosso trabalho. A Bienal nos oferece motivos para celebrar a força da cultura e, ao mesmo tempo, para continuar questionando as estruturas que determinam como ela chega ao público. É esse equilíbrio entre entusiasmo e reflexão que desejamos preservar em nossa atuação.


No fim, os 760 mil visitantes contam uma parte importante da história da Bienal de 2026. Os números demonstram a dimensão do evento, a força do mercado editorial e a capacidade dos livros de mobilizar grandes públicos. Mas a história não termina aí. Ela continua nas obras que despertam novas curiosidades, nas conversas que permanecem depois dos encontros, nas bibliotecas que recebem leitores, nos projetos que aproximam pessoas da literatura e nos veículos culturais que trabalham para ampliar essas discussões.


Uma Bienal pode terminar quando seus portões se fecham, mas a relação com os livros não deveria terminar junto com ela. Se o evento conseguiu reunir tantas pessoas em torno da literatura, seu legado mais importante será contribuir para que esse encontro continue acontecendo fora de seus corredores. E, para o BG Cult, fazer parte dessa trajetória significa seguir construindo um espaço no qual a cultura possa ser celebrada sem deixar de ser questionada, analisada e, acima de tudo, vivida.


Escrito por Brynith de Oliveira Carrera 

Redigido por Gabrielly Thaina 

Editado por Gabriel Galdino e Pedro Lucas 

Comments

Popular posts from this blog

Pecadores - Crítica

BGS 2026: O guia completo das atrações e convidados da maior feira de games da América Latina

The boys, final - Crítica