Pecadores - Crítica
Existem cineastas que fazem filmes, e existem cineastas que moldam a cultura. Ryan Coogler pertence, definitivamente, ao segundo grupo. Após cravar seu nome na indústria com uma trajetória de excelência que começou na extrema sensibilidade de Fruitvale Station (2013), onde nasceu sua parceria visceral com Michael B. Jordan, e passou pela revolução estética e política de Creed (2015) e Pantera Negra (2018), Coogler alcançou o ápice de sua maturidade artística. Em 2025, ele não apenas entregou um filme de terror; ele redefiniu o prestígio do gênero com Pecadores, cravando seu nome na história do cinema ao conquistar o recorde de 16 indicações ao Oscar e levar 4 estatuetas para casa.
Contudo, Coogler não se limita ao retrato realista. O filme incorpora o elemento dos vampiros como uma camada simbólica fundamental: as criaturas sobrenaturais funcionam como uma metáfora das relações de exploração que atravessavam o período. O vampirismo deixa de ser apenas um recurso de gênero e passa a representar um sistema que se sustenta ao consumir o outro — corpos, culturas e identidades — evidenciando como determinadas estruturas de poder se mantêm através da apropriação e da exaustão de grupos historicamente marginalizados.
No centro dessa alegoria social, o ganhador do Oscar de melhor actor, Michael B. Jordan, entrega uma atuação magistral ao duplicar-se em cena. Seus personagens representam as diferentes formas de resistência em um mundo que tenta consumi-los. Fumaça é o pilar pragmático e protetor, que carrega no corpo e no olhar as cicatrizes de quem testemunhou o pior da humanidade no cotidiano brutal do Sul e em assaltos perigosos em Chicago, sendo um homem silencioso que vive em estado de alerta constante. Já Fuligem é a alma vibrante do bar, o idealizador que enxerga a música e o entretenimento como um ato político de dignidade e sobrevivência.
Ao redor deles, o ecossistema de Clarksdale ganha vida através de figuras ricas em subtexto. Há Delta Slim, um músico cuja trajetória carrega o peso literal da exploração do Sul, marcado pelo racismo estrutural da polícia ferroviária e cujo talento resistiu até mesmo ao cárcere; a talentosa cantora Pearline e seu romance proibido com Sammie; e o carismático Brooa de Milho, conhecido como Cornbread, que troca o trabalho pesado do algodão pela portaria do clube.
Um dos acertos mais profundos do roteiro de Coogler é a inclusão da família Chow, composta por Grace e Bo, donos da Delta Grocery. Contando com a consultoria da documentarista Dolly Li, especialista no tema, o diretor trouxe uma bagagem muito pessoal — ligada à ascendência chinesa de seu próprio sogro — para retratar a comunidade real de imigrantes chineses no Delta da década de 1930. Marcados também pela opressão racial e impedidos de frequentar os mesmos espaços dos brancos, os Chow serviam como uma ponte comercial e comunitária fundamental para a população negra. Essa dinâmica cruel da segregação é traduzida perfeitamente em uma cena marcante filmada em um plano-sequência primoroso: nela, a pequena Lisa atravessa a rua saindo da mercearia dos pais que atende a comunidade negra para ir até o estabelecimento do outro lado, onde sua mãe atende os clientes brancos.
As dinâmicas relacionais do filme tensionam as barreiras do preconceito a todo momento. Mary, interpretada por uma atriz branca para acentuar o contraste visual, é a parceira romântica de Fuligem. Personificando o conceito do não-lugar, ela é uma mulher miscigenada vista socialmente como branca, mas legalmente preta devido à histórica regra de uma gota de sangue. Sua passabilidade permite que ela aja de forma imprudente para os padrões da época, frequentando o bar de jazz sem medir os riscos. Isso gera o principal conflito com Fuligem, que vive sob o pânico constante de ver seu afeto transformado em um alvo iminente de morte pela violência do Jim Crow.
Por outro lado, Annie, interpretada de forma avassaladora por Wunmi Mosaku, vencedora do Gotham Awards e indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, surge como a estrutura simbólica e espiritual do longa. Como uma curandeira hoodoo e par romântico de Fumaça, Annie representa a conexão com os saberes ancestrais dos povos africanos escravizados. Em um contexto onde tudo que fugia do padrão cristão dominante era demonizado e associado à bruxaria — ecoando o preconceito histórico sofrido por figuras como Tituba —, Annie rompe com a lógica ocidental. Ela não explica; ela sente, protege e age através do patuá, do gesto e da fumaça.
Sua autoridade é respeitada de forma absoluta pelos gêmeos. É ela quem pressente o perigo quando Brooa de Milho tenta entrar no clube após ser transformado, e ninguém questiona seu diagnóstico. Sua perda no decorrer da trama desestabiliza Fumaça, provando que sua presença não era apenas um adereço de roteiro, mas o próprio eixo estrutural da narrativa.
O contraponto antagônico surge na figura do vampiro irlandês Remmick, interpretado por Jack O'Connell, que chega ao Mississippi fugindo de caçadores da Nação Choctaw. Coogler aqui insere um paralelo histórico brilhante: em 1847, durante a Grande Fome Irlandesa, os Choctaw enviaram ajuda financeira aos irlandeses, mesmo sofrendo os efeitos devastadores de seu próprio genocídio na Trilha das Lágrimas. Além disso, Bram Stoker, criador de Drácula, era irlandês. No filme, os Choctaw perseguem Remmick porque ele não carrega o espírito de dor de seu povo, que outrora foi oprimido pela Coroa Britânica; ele passou a personificar a tese histórica de Noel Ignatiev sobre como os irlandeses nos EUA se tornaram brancos, alinhando-se aos sistemas de poder racistas para gozar dos privilégios da branquitude.
Isso fica evidente quando Remmick canta a canção tradicional Pick Poor Robin Clean. A letra, que fala sobre tirar tudo de uma criatura e deixar apenas o corpo, funciona como uma metafóra perfeita sobre a apropriação cultural: o opressor consome o que considera útil e descarta o resto. Remmick se apresenta como alguém que entende o sofrimento para se aproximar das minorias, mas seu poder é sustentado pelo privilégio racial. A ironia atinge seu ápice na cena em que ele ora com o pastorzinho no lago, afirmando cinicamente que o mesmo sistema que roubou a terra de seu pai os forçou a professar aquelas palavras.
O pastorzinho, aliás, é Sammie, cuja jornada é diretamente inspirada no mito de Robert Johnson e sua lenda na encruzilhada das rodovias 61 e 49. Dividido entre a igreja do pai, que condena o blues como a música do diabo, e seu dom avassalador, Sammie protagoniza uma das sequências mais icônicas da história recente do cinema ao tocar no bar. Ali, o blues é elevado ao sagrado. A necessidade histórica de associar a genialidade de Johnson — e de Sammie — a um pacto demoníaco expõe as engrenagens do racismo estrutural, incapaz de aceitar o virtuosismo artístico de um jovem negro por mérito próprio.
É por isso que a segunda cena pós-créditos é tão potente: ao mostrar Sammie na juventude dominando o instrumento com naturalidade, a narrativa desmonta o misticismo e prova que nunca houve diabo, apenas genialidade pura. A escolha da lenda viva Buddy Guy para interpretar o Sammie mais velho coroa essa tese, criando uma ponte real com a ancestralidade do blues elétrico que moldou gerações como as de Jimi Hendrix e Eric Clapton. O que na juventude era rotulado como amaldiçoado, no envelhecer se revela como um imensurável legado de resistência.
Não se pode falar do impacto de Pecadores sem reverenciar seus aspectos técnicos. A cinematógrafa Autumn Durald Arkapaw fez história ao se tornar a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Fotografia, além de ser a pioneira a rodar um longa-metragem de ficção inteiramente no formato gigante IMAX de 65mm em película. Para domar as câmeras massivas, Autumn consultou diretamente Christopher Nolan e Hoyte van Hoytema. A escolha artística do filme foi a de misturar a imersão vertical das câmeras IMAX com a largura extrema e cinematográfica das lentes anamórficas da Ultra Panavision 70, uma alternância pensada cirurgicamente para brincar com a percepção do espectador, contrastando a imensidão das planícies horizontais do Mississippi com a tensão vertical e sufocante das sequências de ataque.
Para construir a identidade visual da obra, Autumn declarou que sua principal inspiração foi uma coleção de fotografias reais em película Kodachrome da década de 1940. A base visual de Pecadores foi estruturada em torno de sua lente favorita, a 50mm Ultra Panatar, escolhida por trazer uma distorção sutil nas bordas e um desfoque de fundo que traduzem a atmosfera de época. Além disso, a cinematógrafa fez questão de priorizar locações reais na Louisiana, rejeitando o uso excessivo de estúdios digitais para garantir que a luz natural reagisse de forma orgânica na pele dos atores e nos figurinos.
Essa busca por texturas reais e analógicas conversou diretamente com a criação do Halo Rig, um suporte inovador em formato de anel equipado com um arranjo de 10 a 12 câmeras de alta resolução. Desenvolvido especificamente para capturar as expressões de Michael B. Jordan por todos os lados e ângulos simultaneamente, o dispositivo permitiu registrar cada microexpressão facial do actor sob a exata iluminação real que Autumn desenhou para o set, garantindo a precisão visual necessária para a atuação dupla dos irmãos gêmeos. O resultado do trabalho de Autumn Durald Arkapaw é um marco onde o auge da tecnologia de captura e a tradição da fotografia em película se fundiram para ditar o ritmo e o peso dramático de cada cena.
Ao fechar as cortinas, Pecadores deixa um veredito claro e desconfortável: a cultura negra sempre foi desejada, consumida e imitada, mas raramente respeitada na mesma medida em que é explorada. Através do casamento perfeito entre o auge da tecnologia visual e a tradição da narrativa de resistência, Ryan Coogler e sua equipe entregaram uma obra em que o cinema, assim como o blues, assume seu papel de história viva.

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