Michael - Crítica
O filme ”Michael” funciona muito mais como uma homenagem emocional ao Michael Jackson do que como uma cinebiografia realmente profunda e isso parece totalmente intencional. A recepção acabou ficando bastante dividida justamente por isso: enquanto boa parte do público se conectou com a experiência emocional e musical do longa, muitas críticas apontaram a superficialidade do roteiro em certos aspectos da vida do artista.
Um dos maiores acertos do filme está na performance de Jaafar Jackson. Em vez de transformar Michael em uma caricatura, ele consegue reproduzir detalhes corporais, olhares, movimentos e trejeitos de uma maneira muito natural. Nas cenas de palco, principalmente, existe uma tentativa clara de transmitir aquela sensação quase hipnótica que Michael causava quando performava. A direção de arte, figurino e reconstrução visual das diferentes eras da carreira também ajudam muito nisso. O filme entende a dimensão estética e cultural que Michael Jackson representava.
Ao mesmo tempo, existe uma sensação constante de que tudo é cuidadosamente controlado. A espontaneidade que fazia Michael parecer tão humano e imprevisível às vezes se perde em uma abordagem mais “polida”. O Michael real tinha uma presença contraditória: tímido e gigantesco ao mesmo tempo, delicado fora dos palcos e explosivo artisticamente. O longa frequentemente prefere preservar a imagem do ícone em vez de mergulhar totalmente nessas contradições.
Duas ausências acabam chamando bastante atenção: Janet Jackson e Diana Ross. Não apenas por serem mulheres importantes na trajetória do Michael, mas porque ambas representam lados muito específicos da vida dele que o filme praticamente evita explorar.
A ausência de Diana Ross pesa especialmente por toda a complexidade da relação entre os dois. Diana conheceu Michael ainda criança, durante os anos iniciais dos Jackson 5 na Motown, e acabou se tornando uma espécie de figura afetiva e artística muito importante para ele. Décadas depois, os dois voltariam a trabalhar juntos em “The Wiz”, filme que redefiniu a imagem adulta de Michael dentro da indústria e marcou uma fase decisiva da carreira dele. A relação entre os dois sempre foi cercada por rumores, interpretações ambíguas e uma ligação emocional extremamente forte, algo que o longa claramente prefere não tocar. Relatos de bastidores apontam que Diana Ross não quis ser representada no filme justamente por considerar delicada a forma como essa relação poderia ser retratada.
Já a ausência de Janet Jackson também cria um vazio importante, principalmente porque ela foi uma das poucas pessoas que realmente entendiam a experiência de crescer dentro da família Jackson e da indústria musical ao mesmo tempo. Michael e Janet compartilhavam não só laços familiares, mas também paralelos artísticos muito fortes. Ainda assim, o filme praticamente ignora essa dinâmica. Parte disso parece vir do desejo da própria Janet de manter certa distância do projeto e da exposição emocional que ele inevitavelmente traria. Diferente de outros familiares diretamente envolvidos na produção, Janet sempre demonstrou uma postura mais reservada em relação à imagem pública da família e às revisitações constantes da história do Michael.
Outro ponto bastante discutido é como o roteiro suaviza temas mais delicados da trajetória do cantor. O filme evita permanecer muito tempo em áreas desconfortáveis e frequentemente retorna ao espetáculo, à música e à grandiosidade visual. Isso faz com que a obra pareça menos interessada em construir um retrato psicológico complexo e mais focada em eternizar o mito Michael Jackson.
Ainda assim, o filme consegue transmitir muito bem a solidão que existia ao redor da fama. Existem momentos em que Michael aparece cercado de pessoas, produção, aplausos e reconhecimento, mas emocionalmente isolado. Essa sensação silenciosa acaba sendo um dos elementos mais fortes da narrativa.
A infância também é retratada como algo consumido pela pressão artística e pela máquina da indústria musical. Mesmo sem aprofundar completamente os traumas envolvidos, o longa deixa evidente o peso da cobrança desde muito cedo e como isso moldou toda a personalidade do artista.
No fim, “Michael” parece aceitar que talvez seja impossível resumir uma figura tão contraditória, influente e quase surreal em apenas um filme. Como estudo psicológico, ele deixa lacunas. Mas como experiência cinematográfica, espetáculo musical e homenagem à grandiosidade artística de Michael Jackson, o resultado ainda funciona de maneira muito forte.
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