Diabo Veste Prada 2 - Crítica
“Diabo Veste Prada 2” poderia facilmente existir apenas como um exercício de nostalgia. Um retorno confortável a personagens icônicos, frases marcantes e ao glamour da Runway. Mas, surpreendentemente, a sequência entende que revisitar esse universo quase vinte anos depois exige mais do que referências ao original: exige propósito. E talvez seja justamente aí que o filme acerta mais.
A continuação encontra relevância ao atualizar o principal conflito da franquia. Se o primeiro longa falava sobre ambição, sacrifício e o fascínio cruel da indústria da moda nos anos 2000, a sequência parece interessada em discutir permanência. Como figuras como Miranda Priestly sobrevivem em um mundo onde relações de trabalho, poder e autoridade são constantemente questionadas? Como alguém tão temido continua relevante em uma era onde a rigidez já não é mais admirada da mesma forma?
O roteiro parece plenamente consciente dessa mudança. Miranda surge menos monstruosa e mais humana, só não exatamente “boazinha”, mas visivelmente adaptada ao novo cenário. E o filme é inteligente ao não verbalizar isso de maneira óbvia. Existe uma cena específica envolvendo a nova assistente que praticamente sintetiza toda essa transformação silenciosa: Miranda entende que, hoje, pessoas simplesmente não permanecem em ambientes tóxicos da mesma forma que antes. A autoridade absoluta já não intimida como intimidava nos anos 2000. O medo deixou de ser suficiente.
E falando na assistente: talvez ela seja uma das melhores adições do filme. Mesmo sem tantas falas, a personagem domina a atenção sempre que aparece em cena. Existe uma presença muito forte ali, construída mais pelo olhar, postura e timing do que pelo roteiro em si. O filme parece saber exatamente disso, usando a personagem quase como uma sombra constante ao redor de Miranda alguém que observa tudo e absorve tudo.
Andy continua sendo uma protagonista extremamente interessante justamente porque o roteiro não tenta transformá-la em algo que ela nunca foi. Existe maturidade na forma como a personagem encara suas escolhas, e o filme acerta ao não transformar sua trajetória em um melodrama exagerado. Inclusive, a trama envolvendo o namorado soa como uma das partes menos necessárias da continuação. Em alguns momentos, parece mais uma obrigação narrativa do que algo realmente essencial para o arco da personagem.
Já Emily simplesmente rouba o filme sempre que aparece. A sequência entende perfeitamente por que a personagem se tornou tão querida no original e finalmente entrega a ela o espaço que merecia. Tudo em sua trajetória faz sentido: sua evolução, sua postura e até a maneira como ela aprendeu a existir naquele universo sem ser consumida completamente por ele. Emily continua ácida, elegante e absolutamente magnética.
Mas quem talvez carregue o momento mais emocional do longa seja Nigel. Ver o personagem finalmente alcançar o reconhecimento que merecia desde o primeiro filme é uma das decisões mais satisfatórias da sequência. Existe um carinho evidente na maneira como o roteiro trata sua história, e é difícil não se emocionar justamente porque o primeiro longa deixou essa ferida em aberto. Aqui, ela finalmente cicatriza.
A produção também merece destaque. O figurino entende que não precisa competir diretamente com o impacto revolucionário do original e aposta em algo mais sofisticado e contemporâneo. A direção de arte continua impecável, mas agora menos caricata e mais fria, refletindo um universo fashion mais minimalista e digital. A fotografia acompanha essa mudança: tudo parece mais limpo, elegante e discretamente melancólico, como se o filme soubesse que está revisitando um mundo que envelheceu junto com o público.
E talvez seja exatamente isso que torna “Diabo Veste Prada 2” tão interessante. O filme não tenta recriar 2006. Pelo contrário: ele entende o peso do tempo. Entende que o mercado mudou, as relações mudaram e até o encanto pela cultura do excesso mudou. Ainda existe glamour, ainda existe tensão e ainda existe fascínio naquele universo, mas agora tudo é acompanhado por um certo cansaço silencioso.
A nostalgia funciona justamente porque ela não é usada como muleta. O filme respeita a memória do original sem viver exclusivamente dela. E, no fim, consegue algo raro entre continuações tardias: justificar a própria existência.
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