A noiva! - Crítica
A Noiva! é o tipo de filme que parece existir entre o sonho febril e o pesadelo punk. Dirigido por Maggie Gyllenhaal, o longa pega o mito de Frankenstein e transforma tudo em uma ópera gótica caótica sobre obsessão, liberdade e identidade feminina — e, honestamente, funciona muito melhor quando abraça a própria estranheza.
Jessie Buckley domina completamente o filme. A Noiva dela não é uma criatura passiva criada para amar o monstro; ela é violenta, impulsiva, sensual e quase impossível de controlar. Buckley entrega uma performance física absurda, cheia de olhares desconfortáveis, movimentos quebrados e uma energia que parece explodir a tela. É uma atuação que mistura glamour decadente com puro horror corporal.
Visualmente, o filme é maravilhoso. A Chicago dos anos 30 criada por Gyllenhaal parece saída de um delírio expressionista: fumaça, neon, couro, sujeira, cabarés, sangue e romance tóxico. Tem momentos em que parece um cruzamento entre A Noiva de Frankenstein, Bonnie and Clyde e um videoclipe gótico gigante. A fotografia de Lawrence Sher e os figurinos de Sandy Powell deixam tudo estilizado ao extremo.
Mas o filme também é bagunçado — e muito. A narrativa às vezes parece mais interessada em criar imagens “cool” do que desenvolver seus personagens. Alguns arcos simplesmente aparecem e desaparecem, principalmente os envolvendo polícia e revolução social. Em certos momentos, parece que Gyllenhaal quer falar sobre amor abusivo, patriarcado, fama, monstruosidade e desejo ao mesmo tempo… e nem tudo encaixa.
Mesmo assim, quando o filme acerta, ele acerta forte. Existe algo fascinante na forma como ele transforma a Noiva em símbolo de rebeldia feminina ao invés de apenas “companheira do monstro”. O romance entre ela e Frankenstein é desconfortável, destrutivo e estranhamente triste. Christian Bale entrega um monstro cansado, quase melancólico, enquanto Buckley vira a alma caótica do longa.
No fim, A Noiva! não é um terror tradicional e provavelmente vai dividir muita gente. Tem exageros, escolhas estranhas e uma estética quase teatral demais. Mas justamente por isso ele se destaca. É um blockbuster autoral estranho, sujo e ambicioso — daqueles que podem virar cult daqui alguns anos.
Comments
Post a Comment